Quarta Sonora :: Acabou Chorare

Como finaleira da Quarta Sonora do ano, aqui vai um dos álbuns que mais tocaram por aqui em 2013, uma obra prima da brasilidade.

Acabou Chorare é o segundo álbum de estúdio do grupo musical brasileiro Novos Baianos, lançado 1972, com sons repletos de alto astral e celebrando uma nova maneira de ser musica brasileira.

Acabou 2013. Acabou Chorare.


Adotando a guitarra expressiva de Jimi Hendrix e a brasilidade de Assis Valente, e sobretudo a influência estrondosa de João Gilberto, que também serviu de mentor do grupo na época da realização do disco, o grupo realizou uma obra que apresenta grande versatilidade de gêneros musicais.

O título do álbum e a faixa homônima também foram inspiradas no estilo de bossa nova de Gilberto e numa história contada por ele sobre sua filha com Miúcha, a então bebê Bebel Gilberto, e representa a proposta principal do disco de criticar a tristeza que então dominava a música popular brasileira com alegria, prazer e jocosidade.

“Preta Pretinha”, por sua vez, virou mania nacional, e “Besta é Tu” e “Tinindo Trincando” dominaram as rádios do país, esta última um belo exemplo da mistura de baião com rock psicodélico.

Mesmo mais de 40 anos após seu lançamento, o álbum permanece como um dos mais importantes da música popular brasileira e também um dos mais influentes.
Em 2007, na eleição de Lista dos 100 maiores discos da música brasileira feita pela Rolling Stone, Acabou Chorare aparece em primeiro lugar, sendo considerado obra-prima pelos estudiosos, produtores e jornalistas convocados para a votação.

“Não é uma família. Talvez um time. NOVOS BAIANOS. Mais perto do som. No seu mundo subterrâneo. À beira do abismo. Por fora de ‘Ismos’. Na porta. Varrendo o terreiro. Lavando os pratos como quem faz música. Sem prantos, no fonte, na boca da criação…”
— Luiz Galvão, letrista, biógrafo e mentor intelectual do grupo, no encarte de Acabou Chorare.

Entretanto, certa vez, no apartamento de Botafogo, chegou um homem que poria o grupo em ordem. De terno e gravata, tocou a campainha e despertou a atenção de Dadi, que logo pensou: “Ih, sujou, Polícia Federal!”. Mas era João Gilberto—baiano que viria a ser o mentor (musical e espiritual) e principal influência dos Novos Baianos durante um bom tempo. Eram frequentes as suas visitas, mesmo em Jacarepaguá; o próprio diz que ia lá com a esposa Miúcha e a filha pequena Bebel Gilberto “a passeio, e aproveitava a viagem para ouvir o que os malucões estavam tocando, compondo, inventando (…)” Assim, acrescido aos gostos dos Novos Baianos pela então recente Tropicália, pelo choro, o afoxé, o trio elétrico e Jimi Hendrix, os encontros com Gilberto propiciaram novas inspirações, e um verdadeiro reencontro com as raízes musicais da Bahia e do Brasil.

Diversos autores apontam que foi justamente a presença de Gilberto que possibilitou a criação de Acabou Chorare. O próprio título surgiu de uma conversa entre eles, ao contar que sua filha, Bebel Gilberto, ainda pequena, misturava o português com o castelhano que ouvia quando morava no México com os pais, frequentemente usado quando a menina tombava ou esbarrava em algo e chorava, pondo o pai e o resto da família a correr atrás dela, ao que ela respondia, para o conforto de todos: “acabou chorare, acabou chorare”.

Como Baby relembra, “Saído da boca de uma criança mostrava que tínhamos lacrimejado demais. Queríamos o Brasil alegre de volta.”
Sob tal influência, Acabou Chorare foi composto e gravado. No sítio de Jacarepaguá, vivia toda a banda junto com mais outros parentes e amigos, no estilo de vida comunitário típico dos hippies; a quantidade de moradores era suficiente para promover animadas peladas nos finais de tarde, o que os fez criar o time Novos Baianos F.C. e lançarem o disco pós-Acabou Chorare justamente com tal título, Novos Baianos F.C. (1973). Como conta Moreira, “Podia faltar grana para a comida, mas sempre tínhamos dinheiro para comprar maconha e equipamentos esportivos.”A rotina do Cantinho do Vovô era simples. Como conta Paulinho Boca, “Depois do café da manhã, Galvão ia compor, Moraes ficava tocando. A gente se exercitava muito, ia pra praia de bicicleta. Quando o sol estava acabando, começava o baba”, diz, referindo-se ao codinome baiano para as peladas de futebol. A capa do disco, uma mesa de madeira que havia sido construída por Pepeu, mostra pratos e copos espalhados, talheres e panelas desarrumadas, moscas e farinha, simbolizando “mistura” musical e o espírito comunitário do grupo no sítio. Em 1972, ela recebeu prêmio de melhor produção gráfica do ano.
capa-lp-novos-baianos-acabou-chorare

Segundo Moraes Moreira, era natural morar, produzir, compartilhar tudo junto à comunidade do sítio: “Era uma coisa que ia acontecendo dentro daquele caos que a gente vivia… A gente não fechava a porta do quarto para compor. Era ali no meio de todo mundo, na alegria. A gente achava que isso ia influir na nossa música. E influiu…Para nós, a vida era o ensaio. Quando fomos gravar o Acabou Chorare, tudo já estava debaixo do dedo de tão ensaiado do dia-a-dia.”

Dadi Carvalho revela que eram raras as saídas: “Apesar do sucesso das músicas no rádio, não rolavam muitos shows, então a grana era meio curta. E no sítio tinha muita gente morando…muitas bocas para alimentar e pouca grana. Isso não era um problema, porque a gente se divertia demais, vivia filosoficamente. Descobrir uma nova forma de vida era o foco.” Mesmo o dinheiro conseguido nos espetáculos era posto em uma sacola atrás da porta da cozinha, para todos o usarem conforme as necessidades. Com esses comportamentos radicais demais, eles conseguiram cativar a aposta de João Araújo, dono e diretor da Som Livre, conhecido futuramente como pai de nosso querido Cazuza, que bancou a gravação do disco no Sítio do Vovô e impulsionou a carreira dos Novos Baianos e nos presentearam com a beleza de Acabou Chorare

Viva Novos Baianos!
E muito bom som em 2014!!

Saravá Namastê

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